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De “sujo e malvado“ a “limpinho e cheiroso“: como Brasil abrandou tarifaço

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Em menos de dois meses, desde que o presidente Donald Trump falou pela primeira vez na adoção de “tarifas recíprocas” aos parceiros comerciais dos Estados Unidos, o Brasil saiu da lista do “Dirty 15” para o grupo dos “Clean Three”.

Em tradução livre: o Brasil estava inicialmente entre 15 países vistos pela Casa Branca como “feios, sujos e malvados” — com tarifas altas, barreiras não tarifárias, manipulação da taxa de câmbio, práticas desleais de comércio.

Depois de muito esforço diplomático, foi parar no conjunto dos três “limpinhos e cheirosos” — países com mercados relevantes e com quem os Estados Unidos mantém superávits robustos no comércio de bens e serviços.

Além do Brasil, o Reino Unido e a Austrália são parte do time. Todos acabaram sendo taxados em 10% — o menor percentual anunciado por Trump e muito abaixo do aplicado sobre União Europeia, China e a maioria dos asiáticos.

O que mudou de lá pra cá? Na visão de fontes do governo e do setor privado ouvidas pela CNN, em caráter reservado, houve três grandes movimentos nesse período.

1) O primeiro foi a abertura de canais de diálogo praticamente inexistentes até o começo de março, quando o vice-presidente Geraldo Alckmin conversou por telefone com o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick.

Até então, os canais estavam obstruídos. Não havia contatos no primeiro escalão e nem entre as equipes técnicas de governo. Dali em diante, criou-se uma dinâmica.

O chanceler Mauro Vieira e o chefe do USTR (escritório de representação comercial da Casa Branca), Jamieson Greer, estabeleceram uma linha de comunicação. Houve desdobramentos para o segundo escalão, que começou a interagir.

Até quarta-feira (2), o “Dia da Libertação”, não havia nenhum sinal de que a Casa Branca iria abrandar as tarifas direcionadas ao Brasil. O clima em Brasília era de pessimismo.

Mas todos ressaltavam: os argumentos técnicos haviam sido apresentado em detalhes para as várias instâncias decisórias do governo americano. A oportunidade que havia faltado em janeiro e em fevereiro foi aproveitada em março.

2) O peso do setor privado e das alianças corporativas se mostrou. Boa parte do comércio bilateral é intrafirma, ou seja, a subsidiária de uma empresa americana instalada no Brasil exporta à sua matriz nos Estados Unidos.

No processo aberto pelo USTR para ouvir interessados na nova política comercial da Casa Branca, a Amcham Brasil se fez presente.

A seção brasileira da Câmara Americana de Comércio, maior entre 114 existentes em todo o mundo, enviou uma carta à Casa Branca defendendo o “diálogo institucionalizado e estruturado” entre os dois países.

Argumentos apresentados pela Amcham: o Brasil é responsável pelo terceiro maior superávit dos Estados Unidos no comércio de bens com economias do G20; representa o quinto maior mercado para as exportações de serviços do país; e multinacionais americanas remeteram, às suas matrizes, US$ 54 bilhões em lucros e dividendos nos últimos dez anos.

Em resumo: tarifas adicionais aos produtos brasileiros machucariam as próprias companhias dos Estados Unidos instaladas por aqui.

A exploração de alianças corporativas continua. Em maio, uma comitiva de empresários brasileiros embarcará para Washington com o objetivo de encontrar líderes do setor privado americano. É uma tentativa de “exaurir o diálogo”, como gosta de dizer o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, responsável pela organização.

3) Sem alarde e nenhuma divulgação na imprensa, o embaixador Mauricio Lyrio esteve na semana passada em Washington. Lyrio é o secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, principal negociador brasileiro em questões comerciais, sherpa do G20 e do Brics.

Ele teve uma maratona de encontros em que pôde reforçar, com detalhes, os argumentos brasileiros. Passou pela US Chamber of Commerce, maior entidade empresarial dos Estados Unidos, e pelo Departamento de Comércio. E fez duas reuniões especialmente importantes.

Uma, na Casa Branca, foi com Nels Nordquist, o sherpa americano para o G20, assessor de Trump para política econômica e diretor-adjunto do Conselho Econômico Nacional.

Outra foi com o presidente do Comitê de Ways and Means da Câmara dos Representantes, Jason Smith, um republicano do Missouri. Mal comparando, seria o equivalente ao presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) no Brasil, um colegiado por onde tramita qualquer projeto relevante. Pelo cargo e pelo partido, Smith tem trânsito livre no governo americano.

As reuniões serviram para enfatizar a mensagem de que o Brasil tem sido parte da solução, não do problema comercial dos Estados Unidos, com os seguidos superávits mantidos pelo país. Pode haver uma ou outra queixa pontual, mas a relação é favorável aos americanos. Ou seja, o Brasil faz parte do “Clean Three” e não do “Dirty 15”, insistiu Lyrio.

Deu certo — sem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Trump jamais tenham se falado. A tarifa de 10% foi a mesma aplicada sobre a Argentina de Javier Milei (amigo de Trump) e sobre Israel (parceiro preferencial).

O clima de pessimismo generalizado em Brasília foi substituído por um sentimento de alívio entre as autoridades brasileiras e no setor privado.

Um diplomata resumia da seguinte forma na noite desta quarta-feira (2): nunca é bom levar uma “porrada” na cabeça, em referência à tarifa de 10% anunciada por Trump para o Brasil, mas a “bordoada” em dezenas de outros países doeu muito mais.

No fim das contas, comentavam alguns empresários de forma até exagerada, a competitividade relativa de produtos industriais brasileiros melhorou no mercado americano, diante do encarecimento bem maior de concorrentes europeus, chineses, japoneses.

Negociação

O governo brasileiro avalia que haverá espaço, a partir de agora, para negociar tarifas impostas pela Casa Branca nas exportações brasileiras de produtos aos Estados Unidos.

Um exemplo disso é a reunião marcada entre negociadores brasileiros e americanos prevista para acontecer na próxima semana. O encontro demonstra que o canal segue aberto para que os países deem continuidade às tratativas.

A avaliação dessas fontes é a de que há uma alteração em curso do modelo do sistema comercial mundial, com o multilateralismo comercial dando lugar a um sistema que gira em torno dos Estados Unidos –- em que o país negocia de maneira bilateral com os pares.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

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